Atenção, este é um blog pessoal, eu só divulgo/resenho material QUE EU QUERO QUANDO EU QUERO. Você pode até me enviar seu trabalho ou me pedir pra upar alguma banda especifica se quiser... quem sabe eu acabo fazendo? Mas eu não me comprometo a postar/divulgar/disponibilizar NADA.
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sexta-feira, 27 de julho de 2012

JULI / AYF - Conversa com Dezakato e Nenê Altro

Outro negócio que postei aqui que gerou uma boa repercussão foi aquele compacto "Tudo Aquilo Que Não Mata o Poder é Morto Por Ele" (confira aqui).
Ai fui atrás de saber mais sobre assunto, e descobri que escrevi muita merda!
Enfim, escrevi uma matéria para o site Porão Brazil sobre isso, e segue aqui umas partes que não foram postadas lá:


Conversando com Fabinho, Pedrinho e Rogério do Dezakato...

Nenê Altro, posteriormente, no Sick Terror fez umas letras bem pesadas criticando a cena falando sobre patrulhamento ideológico e afins. Vocês viam isso, ou viam e não se ligavam na época, ou acha que foi um pouco de exagero?
Sim, isso sempre existiu também.... mas o Dezakato sempre foi uma exceção dentro dessas bandas mais radicais. Tínhamos nossas idéias, nunca fomos straight edge, vegan... sempre fomos uma banda sincera e fizemos nossos corres dentro da cena alternativa. Jamais fizemos uma imagem diferente daquilo que éramos realmente.


Essa foi a primeira merda, assumir que tais letras eram sobre essa época hehehe.
Aí falando com o Nenê:

Tu me disse que a letra A Nova Escória é sobre outra época, eu não sabia, usei mal tuas palavras ao colocá-la pra falar daquele grupo naquela época?
Sim. É que essa letra é de pelo menos 14 anos depois. Não costumo falar de coisas tão passadas assim, geralmente uso a música para tratar de assuntos que fazem parte do meu presente, do dia a dia. Acho legal as pessoas saberem disso. Mas obrigado pela oportunidade de falar isso pois muita gente não sabe disso e vem me cobrar ideia de músicas como "Vegan Choice" do Personal Choice, por exemplo.
O grupo da AYF era de 1992 e era outra coisa, radical sim, as vezes ingênuo, mas não ignorante, como o problema social das gangues de rua de São Paulo que tratei na música A Nova Escória de 2004. Aliás, o Sick Terror, enquanto estive na banda, foi uma fase absurdamente niilista que atravessei em minha vida. Hoje, por exemplo, já tenho outras visões de luta.


obs: O que me levou a crer que fosse isso é que a música começa com "Tínhamos", o que indicaria algo no passado e que ele fazia parte... e ele completa:


Você mencionou o Ratos de Porão, e questionou que hoje são todos meus brothers. Vinte anos atrás trocar ideia com eles era algo fora da realidade mas a galera que curtia RDP, os fãs da banda, causavam muito no ambiente que a gente trabalhava a política, nas ruas, não nos shows. Tinha muita gente boa e também muita gente ignorante. Se você ler bem o texto foi isso que foi colocado, os FÃS, mas, mesmo assim, jamais faria isso hoje, por exemplo. Acho injusto pegar uma colocação de 20 anos atrás e cobrar ideia nos dias de hoje, do mesmo jeito que acho injusto um povo ainda pegar no pé do Gordo pela frase "pau no cu da Globo, pau no cu de Deus e pau no cu do ABC". Tudo aconteceu num momento de tempoXespaço específico e colocar tudo numa panela e misturar pra servir como sopa nos dias de hoje é algo que não faz sentido algum. Ninguém é o mesmo de 20 anos atrás, quão mais de 30.
A Juventude Libertária foi uma boa fase de minha vida, aprendi muito, mas não foi o primeiro grupo anarquista no qual militei. E fiz muita coisa depois também. Aliás, continuo fazendo.



O resto das entrevistas e mais algumas considerações e cagadas você pode conferir aqui.


E pra fechar, fiquei sabendo que Dezakato voltou e fez alguns shows, quer deixar qualquer contato?
Na verdade nunca paramos, mas.... como hoje em dia todos moram em cidades diferentes, são pais de familia, tem seus empregos, problemas pessoais, etc, fica muito mais difícil nos reunirmos para shows.
Mas sempre que possível a gente dá um jeito de fazer um barulho e tomar umas brejas... quem quiser entrar em contato: http://dezakatohcband.blogspot.com.br/ ou dezakatohcband@hotmail.com.


Sobre um contato do Nenê, o cara tá sempre em muita correria e lembro que lá por entre 2004 e 2007 toda emuxinha que eu conhecia queria desesperadamente dar pra ele... não vou por nenhum contato aqui pro cara não ser assediado depois hehehe
Quem quiser realmente entrar em contato com ele procura seu perfil ou o do Antifest no Facebook.


Falou pra vocês, tô partindo agora pra um rolê animal e semana que vem vocês poderão ver do que se trata no blog da BxDxFx!

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Atestado de Revolta, entrevista e uma história engraçada do dia que trombei eles

(foto retirada do myspace deles)
Os caras são de Araçatuba-SP e depois vai ter mais infos... lembro que vi em alguma comunidade do orkut eles falando que quem quisesse uma demo era só mandar o endereço, eu postei o meu lá mas nem esperava receber nada, nunca tive contato com eles antes e tal, e algumas semanas depois me chega essa belezinha. Confesso que fiquei emocionado.


Depois ia rolar um show em Osvaldo Cruz-SP e os caras iam tocar, eu e um pessoal de Assis resolvemos ir, foi cagada atrás da outra de chegar numa cidade e já ter ônibus saindo (atrasado) pra ir pra próxima cidade, chegando em Osvaldo Cruz já na rodoviária trombamos um punk de lá (também cagada, não tava nada combinado) que nos levou onde estaria o camarada que tava organizando o evento... nós fomos na noite anterior que no outro dia de manhã iria rolar uma manifestação de 7 de Setembro e a gente levou umas faixas, fizemos panfletos, foi massa

(essas fotos foram parar no CMI - a última peguei de lá e não sei quem tirou a foto - falando que foi uma manifestação anarcopunk blablabla... eu tava lá - o de moletom preto e vermelho -, eu fiz as faixas e panfletos, e pra mim foi só uma manifestação contra a farsa nacionalista e a alienação, e apareceu um monte de nazi internéticos falando que sabia de onde eramos, que iam nos pegar e tal hahaha, sempre estivemos nas ruas e nunca nos escondemos e nunca apareceu nenhum nazi pra vir nos pegar... enfim...)


Aí depois fomos pro galpão onde iria rolar o show, ia ser umas quatro ou cinco bandas e o galpão era num distrito industrial fora da cidade, chegamos lá preparamos nosso rango na cozinha, preparamos mesa de zines e informativos, chegou o cara do som pra montar lá e ficamos esperando... tá ligado a mina ali nas fotos? Conheci ela naquele dia, eu tinha botado na net que estaríamos indo pra esse evento tal horário e quem quisesse ir com a gente era só aparecer na rodoviária, e ela apareceu e foi, o problema é que ela era de menor e não avisou os pais e eles viram o recado na internet e chamaram a policia e mandou eles irem atrás de uns tais de "Pira e Davi" (outro que foi comigo e divulgou pela net o evento). Durante a tarde apareceu uma mulher do conselho tutelar lá jogando um verde, até oferecemos almoço pra ela, e deu nem 30min a vaca voltou com a policia... já imaginam o que aconteceu né? Mas o maior problema é que começou uma puta chuva e a delegacia era lá do outro lado da cidade, depois de umas 2h de chá de cadeira nos liberaram (depois tivemos que ir pro promotor responder por corrupção, aliciamento e "condução coercitiva" - que porra é essa? Parece que a gente obrigou a mina a ir hahaha), depois da grande caminhada na chuva, chegamos no galpão e.... nada! Por causa da chuva ninguém tinha aparecido, nenhuma das bandas (eram todas de fora) e nem o próprio pessoal da cidade, só os que já estavam lá com a gente antes.
Era umas 23h e já estávamos há muito conformados que não iria rolar nada (show tava marcado tipo pras 18h), aí a chuva deu uma parada e parou um carro lá fora, era os caras do Atestado de Revolta pra salvar a noite! E atrás dele já chegou uma galera da cidade e foi só ligar os instrumentos e agitar, acabou rolando uma banda de metal da cidade também e os caras do Atestado devem ter tocado um set de 2h, cheio de cover madrugada a dentro e a galera agitando... não tinha tanta gente assim lá, talvez 30 ou 40 pessoas? Mas com certeza lavou a alma! E no dia anterior um amigo nosso roubou uma bandeira do Estados Unidos numa escola de inglês só pra gente queimar durante a música M.I.A. - Maldito Imperialismo Americano (a desgraçada não queimava e a gente acendeu ela com vodka - que ironia hahaha - pena que não tem nenhuma foto do pessoal chutando a bandeira em chamas de um lado pro outro, brincando de queimada literalmente hehehe)


ps: as fotos falam 2007, mas isso ai foi em 2008.

Bom, depois disso aí eu fiz uma entrevista com o Maciel (vocalista/guitarrista da banda) e iria sair em algum zine que eu produzia... mas acabou nunca saindo e faz quatro anos que tenho ela aqui guardada, e já que estou falando sobre a banda segue aí a tal entrevista inédita!


(foto também retirada do myspace)

- E aí, o que te levou ao punk rock? Primeira vez que ouviu, primeiras bandas que curtiu, primeiros rolés, essas coisas.
Então Pira, o punk começou na minha adolescencia, eu tinha uns 14 anos quando ouvi as coletâneas classicas como SUB, Ataque Sonoro e Começo do Fim do Mundo, daí em diante não parou mais...rs
E em Ilha Solteira, cidade que eu morava, era difícil conseguir os discos, pouca coisa chegava lá. Curtia muito Cólera, Olho Seco, Ratos de Porão, e todas as bandas que faziam punk rock no início de 80.

- Como começou o Atestado de Revolta? O que a banda realmente tenta passar para quem está ouvindo? Quais as principais influências?
O ADR começou em 2007, eu tava ja há uns 10 anos sem tocar, chamei uns amigos e começamos um lance sem compromisso nenhum, só pra passar o tempo. Algumas coisas boas aconteceram e o som começou a agradar e se espalhar. A nossa idéia é passar através da musica tudo que nos revolta e, consequentemente, também revoltam a todos. Eu posso dizer que nossas principais influencias são Cólera, Olho Seco, Fogo Cruzado, Agrotóxico e M.O.D.

- Você e os outros integrantes já tocaram, ou tocam, em outras bandas?
Eu toquei em várias bandas, mas nada se compara ao Atestado de Revolta, os outros integrantes também, o Kunhado tocou em vários projetos em Birigui e acho que em São Paulo também, e o Rodolfo tocava numa banda de metal.

- Tem alguma história inusitada sobre algo que aconteceu com vocês?
Todas as viagens que fizemos tem muitas histórias, a loucura de ir tocar no Rio de Janeiro em Setembro do ano passado, no aniversário de 13 anos do Repressão Social acho que foi a mais inusitada de todas. Saímos de Araçatuba numa sexta feira a noite, chegamos em São José dos Campos as 3h da manhã, dormimos na casa do meu irmão até as 5h, deixamos o carro na casa dele e as 6h da manha estavamos pegando o ônibus pro Rio de Janeiro. Lá encontramos a Deise, que foi muito hospitaleira, almoçamos na casa dela, passamos um puta frio conhecendo alguns pontos turisticos da cidade, e fomos pro pico, na Vila Mimosa, ponto de prostituição mais famoso do Rio, um bar caótico, lotado de gente e muitas bandas fudidas, o público todo na rua em baixo de chuva, ninguem ia embora, o show terminou as 6 da manhã, nisso eu ja tava a 2 noites sem dormir, pegamos o buzão de volta pra São José dos Campos, almoçamos com meu irmão e voltamos pra Araçatuba, chegamos aqui na madrugada do Domingo pra Segunda... e no outro dia todo mundo 8 horas da manhã no trampo, com 3 noites sem dormir nas costas e muita história pra contar dessa viagem...rs foi realmente fantástico!!!

- O que você acha da cena atual do punk rock?
No Brasil as coisas sempre são muito bagunçadas, quase ninguém trabalha em função de uma cena, mas sim em função de si próprio. Tem muita coisa legal rolando no interior de São Paulo. Muitas bandas se unindo e mudando esse panorama. Acho que poderia melhorar se as pessoas que gostam do movimento, do som, das idéias se organizassem mais deixassem de lado a idéia de que pra ser punk tem que ser tudo tosco e desorganizado, anarquizar é organizar e organizar tudo de uma maneira melhor e mais humana.

- O que é o "punk" pra você?
Punk pra mim é ser autêntico o suficiente pra afirmar um gosto que a maioria das pessoas nunca irão entender e ser revolucionário o bastante para deixar que esse gosto (som, movimento, idéias) criem uma revolução interna e pessoal que te faça passar por esse mundo e viver nessa sociedade de forma digna e divertida.

- Eu vi que vocês lançaram uns sons numa coletânea internacional, tem mais projeto do Atestado vindo por aí?
Temos vários projetos com splits com várias bandas, mas ainda não conseguimos agilizar nada, rs.... o trampo acaba tomando muito tempo...rs

- Alguma consideração final?
Abraço a você que foi um camaradaço que conhecemos e que também tem histórias com a gente pra contar... e pra todos que lerem, faça valer a pena, pelo menos alguma coisa na sua vida!!!! Valeu!


Infelizmente a banda acabou entrando num hiato que persiste até hoje, e não sei se mais algum material chegou a ser lançado. Enfim, segue aí a tal demo que recebi pelo correio e que deixei tocando enquanto escrevia/transcrevia tudo isso aqui regado a nostalgia.

01 - Você
02 - Terror
03 - Solução
04 - Atestado de Revolta
05 - Medo
06 - M.I.A.
07 - Temos Que Lutar
08 - Insociável
09 - Beco Sem Saída

sábado, 21 de julho de 2012

Curiosidade sobre Grindcore - surgiu no Brasil, mas não com o Brigada do Ódio

In english HERE.


Ainda conversando com o Vladi...


Pira - Cara, esses tempos li uma matéria, não lembro em que site, falando que o Brigada do Ódio teria sido a primeira banda de grind do mundo. Eu nem me ligava das datas que surgiram cada banda, sempre achei que a primeira fosse Napalm, mas só em 87 que eles foram gravar grind, depois fui ver no wikipedia e sites assim e eles falam que a primeira banda seria uma americana chamada Siege, que lançou uma demo em 84. Eu li no catalogo do Denis que ele pretendia lançar um 7'' com uma demo do Brigada de 83... já pensou em desengavetar isso aí e roubar dos americanos o título de criadores do grind? Vingança pelo Santos Dummont hahahaha

Vladi - ha ha !!
Na verdade esta demo em referência se trata do embrião do Brigada do Ódio, ou seja um projeto insano do Luizão chamado ETC (Etcétera). Uma parte deste projeto já foi o início do Brigada do Ódio, que começou na cidade de Mauá. O som era ainda mais violento e barulhento que o próprio Brigada.
O Luizão era uma figura singular e nos divertimos muito concebendo o material do Ulster (nesta época ele praticamente morava na minha casa), e logo depois começou com idéias alopradas como, por exemplo, fazer uma música com uma nota só para não "perder" tempo nem a velocidade trocando de posição na guitarra.
Ele era obsessivo por velocidade nas músicas, isso era engraçado pela forma como ele encarava a questão da agressividade pela velocidade do som, mas reconheçamos que foi sim o início de um estilo que depois de tempos veio a ser batizado de grind. O próprio Napalm revelou serem fãs do Brigada do Ódio, na primeira aparição deles em SP o baixista tinha um adesivo da banda no instrumento e isto chamou muito a atenção da galera na época, pois o Brigada estava inativo há tempos.


Procurei, a tal matéria é essa aqui: O Resto é Ruido (muito muito boa, vale a pena ler)
Além de não citarem essa tal de Siege, cuja demo de 84 teve cinco reprensagens em CD, falam que a primeira gravação do Brigada seria essa de 85 com Olho Seco. Pouca gente sabe que já havia uma demo anterior, e, pasmem, de uma banda mais brutal! Agora é só torcer para que o projeto de reprensagem saia da gaveta, seja com nome de ETC ou Brigada do Ódio, e assuma o título de primeira banda de grindcore do mundo!


Mas ainda acredito que a primeira musica grind do mundo foi essa aqui, também tupiniquin, gravada em 1974:
Em pensar que nessa época Ramones ainda tava aprendendo a tocar Punk Rock. Dá-lhe vanguardismo Damião Experiença!

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Entrevista com o Vladi (Ulster, Brigada do Ódio, Rasura Records)

A postagem que fiz sobre a ABC Records gerou uma boa repercussão, bastante gente veio conversar comigo sobre o assunto então eu resolvi montar uma matéria sobre isso.
Aqui uma parte dela, uma conversa com o Vladi falando sobre a cena política do movimento punk nos seus primórdios.


Como era a influência de partidos dentro da cena punk durante os anos 80?

Olha só, bem no começo da coisa (mais ou menos 1979) não existiam lugares para tocar, nem os botecos zoados. E também foi um tempo em que os movimentos de extrema esquerda oriundos dos Partidos Comunistas (Convergência Socialista, Alicerce, etc.) começaram a se fundir, culminando no que viria a ser o PT. Estes segmentos socialistas promoviam enfrentamentos com a polícia durante as famosas greves do Sindicato dos Metalúrgicos no ABC, e perceberam que o movimento Punk também tinha este particular de enfrentar o Regime Militar vigente na época. Se aproveitaram da falta de espaços para as bandas tocarem e regularmente ofereciam seus diretórios para as bandas e para os punks fazerem suas primitivas aparições. O que aconteceu foi que alguns punks acabaram se identificando com esta militância e acabaram por se filiar, ou desenvolveram algum tipo de simpatia com o PT. Entenda que o anarquismo que experimentamos nestes tempos era mais intuitivo e reativo aos abusos do regime militar, do que algo concebido pelo ideal libertário, pois todos os livros sobre temas anarquistas publicados nos anos 60 e 70 foram confiscados e destruídos. Ainda hoje é muito raro um exemplar da editora Germinal. Livros do Roberto das Neves, José Oiticica e os ícones do anarquismo contemporâneo só fomos conhecer um pouco mais tarde. Os movimentos de extrema direita aconteceram bem mais tarde (perto de 1984/1985). Existiam também as confusões, como você muito bem citou, do real significado da suástica e outros símbolos. Muitos punks queriam mesmo era chocar a sociedade e muitas vezes se faziam valer de qualquer argumento para isto. Os primeiros Skinheads (Carecas do Subúrbio) surgiram de dissidências da cena punk, e como dizem os dissidentes são os maiores opositores. Começaram então os primeiros conflitos entre punks e carecas. Logo depois vieram os carecas nacionalistas que intensificaram as tretas. As bandas eram mais tolerantes, porém eram muito cobradas por atitudes consideradas antagônicas à ideologia assumida.

Entre os conflitos dentro da cena, o que pesava mais: O bairro ou a ideologia?

Os conflitos surgiram meio que incidentalmente num som de fita que ocorreu em São Caetano do Sul, e acabou por separar os punks (e de uma certa forma as bandas) de São Paulo e do ABC. Observamos posteriormente que as bandas do ABC tinham menos recursos técnicos, porém uma bagagem política mais contundente. Mas não considero isto uma verdade absoluta. 

Rolava de bandas de posicionamentos diferentes tocarem juntas? O público se importava?

As bandas tocavam juntas sim, por exemplo o Ulster tocou com o Dose Brutal sem nenhum problema para as bandas nem com o público. Já de 1986 em diante isto se tornou muito mais problemático, pois a cobrança era muito maior.

Ao meu ver, o grande racha ideológico aconteceu pelo final dos anos 80, e a cena dos anos 90 já surgiu bem polarizada. Como foi pro pessoal mais velho ver isso?

Realmente nos anos 90 todo o conceito libertário ficou mais claro e muito mais acessível. Isto não incomodou o pessoal mais antigo, pois até hoje existe uma sinergia muito legal entre a galera mais nova e o pessoal das antigas. Muito intercâmbio e pouca cobrança (pelo menos comigo e com minhas bandas). Gosto muito das iniciativas das bandas mais novas.

Tu me contou que foi quase vizinho do dono da ABC Records, que lançou alguns materiais do Ulster, em algum momento te incomodou ele também lançar materiais de bandas fascistas?

Bem, agora falando dele, me incomodava muito seu "lado B", que começou com seu gosto por bandas street punk que tinham um pé na cena Oi! e posteriormente WP. Na verdade ele sempre foi uma pessoa muito boa de coração (das melhores do movimento), mas nunca consegui entender este desvio. Acredito que tem haver com uma ocorrência pessoal que não me sinto bem em relatar. Por várias vezes tentei dissuadi-lo destes vacilos, mas somente depois de vários problemas ele percebeu a cagada que fizera. Já há alguns anos ele anda distante disto tudo. Porém a cena punk deve muito a ele pelos trabalhos prestados.

Eu não sei quanto à capital, mas no ABC surgiram Nova Nação, Frente Nacional, Arsenal, Poder Branco/Locomotiva entre outras, qual tu acha que foi o motivo para o surgimento de tantas bandas de visão conservadora? Na capital também houve essa tendência?

Sobre as bandas White Power penso que o ABC também foi reduto delas (infelizmente), mas SP também experimentou esta pobre competição.

Cara, espero que algo te seja útil, e quero te cumprimentar pela ótima escrita e sobretudo pelo refinado entendimento dos diferentes pontos de vista por que passam as pessoas, e que são eternamente mutantes.

Valeu pela participação e apoio Vladi!


Eu fui convidado a escrever para o site Porão Brazil, e a matéria completa esta lá, apesar de ser uma visão superficial sobre o assunto tem algumas coisas que talvez vocês achem interessantes. Confiram a matéria aqui.